Fátima Bernardes estreia com falhas pontuais e falta de entretenimento

Saem os desenhos e entram em cena os debates. A mudança de foco da Globo ao tirar do ar o TV Globinho para estrear com toda pompa e tecnologia o Encontro Com Fátima Bernardes deu certo no Ibope, mas deixou a desejar em entretenimento. Com média de 10 pontos e picos de 12, a nova atração alavancou a média matinal da emissora, que sofria com as intermitências do Mais Você e Bem Estar, mas foi cansativa e muito sisuda para o horário.

A atração começou com um vídeo mostrando o que Fátima Bernardes fez desde sua saída do Jornal Nacional. Afinal, após ficar 14 anos à frente da bancada do principal noticiário da emissora e se ausentar por pouco mais de seis meses merecia uma justificativa. Bela produção. "Enfim, chegou a hora!", dizia a última narração da apresentadora antes de entrar no palco do estúdio.

"Hoje o programa está pronto, mas eu tenho certeza de que ele vai mudar a cada dia, vai ficar diferente, porque, a partir de hoje, ele vai contar com você. Eu quero muito que você se sinta parte de tudo o que vamos discutir aqui. Que você se divirta, colabore com ideias que serão úteis pra todos. E pode ter certeza de que a nossa equipe estará atenta, cuidando pra que você fique sempre muito bem informado. O jornalismo da Globo estará a postos para que as notícias que vão fazer diferença no seu dia a dia você veja aqui comigo. Seja muito bem vindo a nossa casa nova", disse Fátima antes de partir para as pautas da atração.

A primeira a ser escolhida foi adoção, que se estenderá por toda a semana. Foram 30 minutos de conversa sobre o tema, com direito a intervenção do correspondente Marcos Losekann – que falou sobre o processo para adotar uma criança em Londres -, reportagem de Marrocos e uma matéria de Lilian Teles feita em orfanatos. Produto cansativo, que ocupou os primeiros 30 minutos do Encontro com depoimentos de pessoas que optaram por este método para ampliar e/ou construir suas famílias. Todos os assuntos ali pontuados já foram explorados massivamente nos matinais das emissoras. Ana Maria Braga visitou o tema inúmeras vezes no Mais Você. "A intenção desse nosso encontro não é fazer campanha pela adoção, mas falar mais sobre o caso", disse Fátima.

 

Antes do fim do primeiro bloco, o humorista Marcos Veras, conhecido pelo trabalho no Zorra Total, afirmou estar ansioso pelo fato de o programa ser ao vivo e por não estar usando a "máscara" de nenhum de seus personagens. Fez algumas piadas, mas o ambiente sério e respeitável imposto pela figura da apresentadora intimidou a plateia de se debulhar em risos.

No segundo bloco, o tom ficou mais leve quando Fátima quis dar o troco no marido e perguntou: "onde está você, William Bonner?". O jornalista prontamente apareceu no telão, diretamente da sala de reuniões da redação do Jornal Nacional, ao lado de sua equipe. Além de parabenizar a mulher pela estreia, citou alguns dos temas que serão apresentados nesta noite no noticiário: mensalão, eleições no Egito e queda do presidente no Paraguai. Assuntos que fogem da proposta do Encontro e que por pouco não trouxe de volta a tensão do primeiro bloco. "Muito lindo o programa", disse Bonner. "Obrigada", respondeu Fátima. Faltou traquejo para o casal telejornal mais badalado do Brasil perder a formalidade do passado.

Segundo tema do dia: aumento de número de brasileiros que viajam para fora do País. No palco, um grupo de amigos que tiveram filmadas pelo programa as 24 horas antecedentes à viagem. O bate papo foi leve, descontraído, com histórias divertidas. Mas a timidez entre os entrevistados era notória. Eles estavam diante de uma figura que se apresentou séria por 14 anos e agora está sorrindo para eles sem parar. Na reportagem, um grande desserviço social: um dos personagens dirige seu carro em uma movimentada avenida do Rio de Janeiro olhando para a câmera que o filma e falando ao celular.

Assunto bem explorado, que poderia ser abreviado e ocupar menos que os trinta minutos exibidos. No terceiro bloco, a pauta foi depilação masculina. Papo batido, repetitivo, mas que ganhou força no programa. Valeu pelos depoimentos do ator Bruno Gissoni (intérprete de Iran em Avenida Brasil) e do lutador de MMA Fábio Maldonado, que explicaram os motivos de serem adeptos do método e arrancaram risos da plateia com algumas brincadeiras. Fátima, bastante polida, fez uma quebra na animação quando o lutador afirmou depilar "outras partes" do corpo. "Impublicáveis para o momento, são 10h40", disse a apresentadora.

Quarto e último bloco: reportagem de Marcos Veras com anônimos na Central do Brasil, que rendeu algumas risadas. Ao final, Fátima revelou qual a notícia mais feliz que deu em sua vida: a gravidez dos trigêmeos. Após um breve discurso, ela encerrou a atração prometendo mais debates nos próximos Encontro.

Não deu certo

Sair de trás da bancada de um telejornal e ficar livre por um estúdio com 60 convidados, comandando assuntos de forma mais densa e ao vivo foi um grande desafio para Fátima Bernardes, que se repetirá ao longo da semana e até quando o programa vingar. Falhas eram esperadas devido à ansiedade da equipe. Mas algumas nada tiveram a ver com as emoções e precisam ser revistas para que o Encontro justifique a tentativa da Globo em ter sua própria Oprah Winfrey. Vamos aos pontos:

– Fátima está num programa descontraído, que requer leveza em sua postura. Ela se saiu bem, tirando o fato de jogar seus cabelos para o lado inúmeras vezes. Tira o foco do telespectador em seu discurso.

– Por estar em um programa leve, Fátima precisa exercitar a locução e trabalhar melhor a demonstração de suas emoções. Sorriso constante no rosto não significa simpatia. Dizer somente um "obrigado" ao marido após ser elogiada ao vivo pareceu uma das brincadeiras pontuais que faziam na bancada do Jornal Nacional. O clima é outro e uma interação mais calorosa seria de bom tom.

– Suor: Marcos Losekann e Marcos Veras, um em Londres e o outro no estúdio carioca, sofreram de calor. O correspondente apareceu no telão do programa secando a testa com um lenço, enquanto o humorista exibia as marcas na região das axilas de sua camisa.

– Pautas: os assuntos do programa de estreia eram batidos e não trouxeram nenhuma novidade ao público. Não foi informativo, tampouco divertido. Fazer um programa de variedades pede mais que intermináveis debates. É preciso encontrar uma saída para deixar os blocos menos cansativos.

– Break: a apresentadora se posicionou no centro do palco ao final de cada bloco, esperou as luzes do estúdio baixarem e as propagandas serem exibidas. O atraso para a entrada dos comerciais fez Fátima parecer perdida, sem ter com quem interagir enquanto a vinheta rodava. O recurso utilizado para evitar o constrangimento da solidão foi olhar para as fichas que segurava. Além disso, a música apresentada ao fim dos blocos é muito baixa, lenta e sem emoção. Não combinou com a temática da atração.

Texto publicado originalmente no E+