Cinema; Senhor dos AnéisFoto: Reprodução

Pensando alto | Assédio sexual, sexismo, carreiras destruídas: que rumos tomará o cinema agora?

*Por Rodrigo Lima Romano

“O cinema é a arte de contar histórias!” – uau, quantas histórias! O cinema revolucionou a maneira como retratamos o nosso cotidiano, a vida, o homem. Agora, mais de 100 anos depois de ter surgido, os caminhos vão aos poucos apontando outra direção. Mas que direção é essa? Qual o caminho que o cinema pretende trilhar no futuro? Em tempos de mudanças sociais significativas, a pergunta recorrente é: o cinema retrata adequadamente a realidade dos nossos tempos ou apenas reproduz modelos ultrapassados? Aparentemente, um novo parágrafo da Sétima Arte começa a ser escrito.

De tempos em tempos, as sociedades remontam a maneira como as suas histórias são contadas. O fato é que “contar histórias” foi uma das decisões mais importantes que a humanidade já tomou e essa revolução surgiu a partir de um mecanismo simples e inesperado: a imaginação simbólica. E há exemplos para isso.

Alguma vez na vida você já deve ter ouvido falar sobre “arquétipos” – eles são como resíduos da nossa psique e advém de inumeráveis experiências do mesmo tipo e que estão enraizados no inconsciente coletivo de todos os seres humanos. Eles não são meramente familiares. Nós os encontramos em vários livros e filmes e o uso esses arquétipos é uma manobra para atingir o inconsciente dos seus expectadores.

Um homem esbarra em uma mulher em uma avenida movimentada de Nova York. Os papéis dela caem no chão – ele se abaixa para pegá-los. Eles se entreolham; sorrisos tímidos. Um encontro é marcado. Flerte, um drink, anedotas engraçadinhas. Ops, o cara está em dúvida – uma ex-namorada sexy, cabelo esvoaçante e meio pilantra ressuscita dos mortos. A “mocinha” e a “vilã” duelam pelo amor do homem, que indeciso entre o passado e o presente, nada faz além de reclamar para o melhor amigo. Amigo este que invariavelmente obedece a dois estereótipos: nerd, solitário e injustiçado por mulheres “loucas” ou então o tipo desonesto e mulherengo. No fim, ele fica com a mocinha, é claro. O bem vence o mal, o novo amor vence a ex- namorada.

As mudanças

Apesar de ser contada incansavelmente, essa história não reflete em nada a realidade atual. O papel da mulher mudou. Mudou em todos os sentidos: postos de trabalho, impacto econômico, autonomia política, social e, principalmente, física. É uma mudança em andamento, lenta e de intensa transição – precisa-se avançar ainda mais, especialmente em países em desenvolvimento. Enquanto em alguns lugares temos representatividade em crescimento exponencial, em outros, mulheres são sequestradas, estupradas e obrigadas a se casar com seus algozes. No Brasil, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada. Nas ruas, cada vez mais elas vestem suas armas em busca de direitos e espaço, enquanto no cinema elas ainda são sexualizadas, diminuídas, descontextualizadas e, frequentemente, retratadas como instáveis, emocionalmente dependentes e fracas.

As denúncias de assédio que estouraram em Hollywood nos últimos meses vieram para acentuar ainda mais a importância dessa mudança. Retratar mulheres com dignidade virou assunto sério. Gal Gadot, a atual Mulher-Maravilha, pressionou um importante estúdio pela retirada de um produtor conhecido por assediar mulheres da sequencia da franquia. Longa esse, que foi ovacionado por retratar mulheres guerreiras em um contexto não sexualizado. Reese Whiterspoon chamou a atenção em um discurso para uma fala recorrente em roteiros, sempre dita por mulheres aos personagens masculinos: “o que vamos fazer agora?”. Mulheres que nunca sabem como agir em situações emergenciais, que estão esperando o príncipe encantado surgir, submissas. Isso acabou!

Tem-se aqui uma receita ideal – o feminismo nos deu a medida exata para a igualdade dentro e fora das telas e, apesar de parecer estarmos regredindo, muita coisa tem mudado em relação aos papéis femininos. Mas e os homens? Como retratar homens reais em uma sociedade que incita a todo tempo a imagem do homem macho, agressivo, confiante e sem emoções? Já reparou na quantidade de personagens que foram queridinhos por décadas e que na verdade, olhando bem de perto hoje em dia, são verdadeiros embustes?

O retrato masculino

O que dizer de Ross, personagem de David Schwimmer no seriado Friends? Ciumento, possessivo, pontualmente homofóbico e manipulador. Parece triste dizer isso, ainda mais vindo de um projeto com personagens tão queridas. Mas a realidade é que a culpa não é do Ross e sim do modelo, do rótulo. Para a sociedade da década de 90 e início dos anos 2000, infelizmente, ele está contextualizado. Há quem diga que ainda hoje ele está adequado. O que dizer também de tantos outros personagens que resgatam as suas amadas de situações de perigo ou até mesmo das situações mais corriqueiras? Richard Gere fazendo um mainsplaining para a personagem de Julia Roberts em Noiva em Fuga, as personagens neuróticas de Woody Allen, as “Bondgirls” que atiram aqui e ali, mas invariavelmente acabam mesmo é sendo salvas, entre tantos outros clichês comprados por nós no produto final.

Mas calma, o cinema respira! Enquanto é difícil pensar em exemplos de papéis masculinos que atendam a uma realidade crua em relação ao homem, temos sucessos pelo outro lado, nas telinhas e nas telonas. Furiosa (Charlize Theron em Mad Max), Annelise Keating (Viola Davis em How To Get Away With Murder), Katniss (Jennifer Lawrence em Jogos Vorazes), Tris (Shailene Woodley na trilogia Divergente), Olivia Pope (Kerry Washington em Scandal), Mulher-Maravilha: tudo isso apenas nos últimos cinco anos. Há ainda Erin Brockovich (Julia Roberts) e Hermione (Emma Watson) – entre tantas outras que cimentaram esse caminho até aqui. Mesmo que ainda atribuam a elas qualidades tidas como “masculinas”, aos poucos estamos descontruindo a ideia de mulheres “mais machos que muito homem” para apenas “mulheres incríveis” como elas o são. O feminismo aponta aqui uma importante matriz de mudança – a de que o homem também sofre nas mãos machismo, ainda que tenha todas as vantagens sociais. Ele encarcera, reprime e o molda negativamente também. Muitos homens já enxergaram isso. Dentro da indústria há um movimento amplo pelo fim do sexismo e também por papéis mais realistas. Um movimento em conjunto entre atores e atrizes.

Muitos homens (e infelizmente mulheres) batem o pé em prol de um retorno ao conservadorismo. É absurdo? Sim. Mas esse é um movimento cíclico, apontado por historiadores como o motivo pelo qual tanta gente estranha a mudança no padrão. Tudo que consumimos tem raiz profunda nesse cenário bucólico e distante do nosso dinamismo. Por isso, levantar-se contra esse modelo é sempre um ato de resistência.

Em tempos onde o meio-termo não cabe mais, estamos presenciando uma mudança em tempo real e, ainda mais, com a nossa participação integral graças à internet. Somos o consumidor final e o mercado determina o mercado. Somos os donos do que consumimos. Sendo assim, que venham mais histórias incríveis – de mulheres e homens sensacionais! Que a igualdade de gênero no cinema explane de uma vez por todas o caminho da mudança.

Se a vida imita a arte e vice-versa, porque não a imitar com a verdade?

*Rodrigo Lima Romano é escritor, ator, personal trainer e se chamar de Doug ele também atende, tá?