O realismo fantástico de Santiago Morto | para pensar e dar boas risadas

Santiago está morto! Todos veem e já esperavam. Era uma morte já sabida por todos, menos pelo próprio, que morreu desonrado e retalhado por culpa de uma desonra.

É essa a tragicomédia que se vê no palco, que reflete sobre as transformações do cotidiano após uma fatalidade e até que ponto o acaso age diante da vida dos envolvidos, encenada sem a presença física do morto.

Santiago Morto dispensa o corpo defunto de Santiago Nasar no palco até mesmo porque, de que vale um morto para explicar sua própria morte se nem tempo de saber de que se tratava o ataque teve ele? Deixemos para que os vivos se deem conta do que aconteceu e cheguem, se forem capaz, a uma conclusão.

E é assim mesmo que o enredo se desenrola, construindo as cenas através de lembranças, narrativas, e até mesmo uma espécie de investigação policial que vai montando o quebra-cabeça dessa morte anunciada. E aí está a inspiração do texto representado.

Santiago Morto bebe da fonte do realismo fantástico do romance Crônica de uma Morte Anunciada, do escritor colombiano e Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez.

Com direção de Wallyson Mota e Fernanda Bellinati, o grupo Estação Teatro leva ao palco essa indagação sobre de quem são as responsabilidades da vida.

Em sua pré-estreia, poucos ajustes a serem feitos, mas um deles fundamental: há uma vela, elemento de cena importantíssimo, que precisa manter-se acesa. Não que o espetáculo não aconteça sem ela – porque aconteceu –, mas é certo que ela faz toda a diferença uma vez que marca a “presença” do morto como entidade cênica, mostra à plateia que mesmo não estando ali, ali está.

Há também que se repensar a necessidade de um único palavrão no texto, dispensável e sem importância ao longo de uma hora e quinze de encenação.

O cômico casa-se bem, em seu tempo e modo de se apresentar, diante da tragédia da morte. O público ri sem esforço das graças muito bem marcadas. Destaque para a cena em que a médica legista – personagem de Paula Zaneti, deveras caricata e daí o seu humor – redige seu laudo sobre a autópsia do corpo e interage com os presentes na primeira fila, tendo ao fundo os outros atores numa “coreografia” na qual cantam “cabeça, ombro, joelho e pé”. O riso é garantido.

Uma pena o psicológico dos irmão gêmeos Pablo e Pedro, assassinos de Santiago, não ser explorado em mais tempo de cena. Tão diferentes um do outro, traços que ficam muito bem marcados na interpretação de Abel Xavier, também tiram gargalhadas do público, principalmente quando se trata do irmão mais atrapalhado dos dois.

O figurino simples, de base neutra, marca cada uma das personagens colaborando com a percepção do público sobre quem está em cena: um chapéu, uma saia estampada, uma camisa ensanguentada, óculos de grau, enfim. Vale a pena conferir, rir e pensar. Santiago Morto estreia oficialmente no dia 20 de junho, às 21 horas no teatro do Sesc Consolação, com ingressos a preços populares.

Santiago Morto

Direção de Wallyson Mota e Fernanda Bellinati

De 20 de junho a 12 de julho

Segundas e terças-feiras, às 21h

Espaço Beta – Sesc Consolação Rua Dr. Vila Nova, 245 – São Paulo/SP

Ingressos: R$ 10 (inteira)