Mas será o Benedito? Um autor que era incrível, porém de declarações lamentáveis

Será o Benedito? Um autor incrível, porém de declarações lamentáveis

Meu caro Benedito Ruy Barbosa,

Foi com tristeza que li hoje uma notícia a respeito de sua “opinião” acerca de “bichas” ganhando espaço e sendo retratadas em novelas. Logo eu que tanto acompanhei suas tramas, que assisti, ainda criança, sua discussões sobre temas polêmicos, dando visibilidade a situações que precisavam de luz. Fiquei chateado e me senti ofendido. O senhor me perdoe, mas tenho direito e o dever de me indignar diante de tais impropérios depois desses, pelo menos, 20 anos de convivência que temos.

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Foto: Reprodução

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Enquanto lia tais absurdos, comecei a lembrar-me de Renascer, um trabalho fantástico seu, ao lado do genial diretor Luiz Fernando Carvalho – parceria certeira inúmeras vezes repetidas. Veio-me à memória a história de Buba – ou seria Alcides? -, que não era gay, era uma personagem hermafrodita bastante complexa interpretada por Maria Luiza Mendonça, em 1993. Eu não tinha nem 10 anos de idade nessa época e me sinto agradecido ao senhor, porque foi graças a Buba, em rede nacional, que eu soube o que significava o termo “hermafrodita” e pude, mesmo que ainda criança, conhecer um pouco desse universo e, ainda que inconscientemente, aprender a respeitá-lo. Inclusive, não me lembro desse assunto ter sido tratado novamente em novelas.

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Depois veio O Rei do Gado e o senhor trouxe à tona a discussão a respeito da terra, tocou em assuntos delicados como a reforma agrária em um Brasil pós “Plano Real”, criticou a política nacional dando vida ao raro e honesto senador Caxias, brilhante papel de Carlos Vereza, e que não tinha esse nome à toa, não é mesmo? Estava aí o senhor defendendo mais uma causa.

Em suas tramas de época, temos aí Terra Nostra e Esperança como exemplos, pensei que o senhor fizesse uma crítica à sociedade machista de então, que fosse uma tentativa de mudar a visão brasileira a respeito da submissão feminina.

Terra Nostra

Mas pensando bem, mesmo com tantas boas memórias a respeito de suas obras, talvez eu tenha me enganado a respeito de tudo ou o senhor esqueceu-se de tudo o que já fez. Quando o senhor se diz preocupado com as crianças que assistem às histórias das “bichas” e como seus pais não saberão lhe explicar o que se passa, entristeço novamente. Na verdade, tenho vontade de rir, Benedito. Não é possível que o senhor use deste tipo de muleta para tentar esconder um preconceito, um machismo homofóbico. Benedito, o senhor usou a palavra “ódio”, “odeio história de bicha”. Como escritor, ninguém melhor para saber o poder e o significado das palavras, certo? É uma pena (ou não!), mas essas declarações irão custar caro à sua nova empreitada em Velho Chico. E ela prometia tanto…

“Tenho dez netos, quatro bisnetos e tenho um puta orgulho porque são tudo macho pra cacete”, disse o senhor durante o evento de lançamento da nova novela. Bom, desculpe-me aqui desiludi-lo e usar uma expressão que talvez o senhor também até use, afinal os machistas e homofóbicos sempre falam assim, mas tem muito cara “macho pra cacete” que “dá a bunda” pra outro cara “macho pra cacete”, o senhor sabia? Ah, também tem muito cara “macho pra cacete” que “dá a bunda” pra caras femininos pra cacete, choque-se o senhor! Inclusive, existe muito “macho” casado que tem outro homem como amante e só se realiza na cama com ele. O senhor sabia que tem dessas coisas no mundo e não é de hoje?

Benedito, eu não sei se o senhor tem o costume de acessar a internet ou tem redes sociais. Ontem, 8 de março, foi o Dia Internacional da Mulher. Nós comemoramos e pensamos que havia sido uma nova conquista e mais um avanço na luta a favor do respeito e contra o machismo e a homofobia, a homenagem que a L’Oréal teve coragem de publicar. Em um vídeo sensível, sensacional, respeitoso e de bom gosto, festejamos o primeira Dia Internacional da Mulher de uma transexual. Mas depois de tudo isso, Benedito, o senhor me chega hoje e apresenta todo esse retrocesso em forma de declaração.

O senhor deveria deixar seu ódio um pouco de lado e assistir ao vídeo aí em cima. Aliás, pode assistir a esse documentário aqui, logo abaixo, também, o Bichas. O trabalho é uma aula às crianças sim. Não de como se tornar um transexual – ou uma “bicha” ou um “viadinho”, como o senhor deve chamar os gays por aí -, mas de como respeitá-lo, aceitá-lo e deixá-lo seguir em paz com sua vida, que em nada interfere na sua, na minha e na de ninguém, não é mesmo?

Todo o mundo só quer ser feliz, Benedito. Repense, retifique. Não é feio assumir que disse algo sem pensar, pedir desculpas pelas besteiras proferidas, se retratar. Mas se for fazer só da boca para fora, deixa pra lá. Os gays, as lésbicas, os transgêneros, os bissexuais e todos os muitos gêneros em si – sim, se o senhor procurar ler um pouco mais, vai encontrar muita boa informação a respeito, dá uma busca aí – não precisam do seu apoio, mas também não precisam que o senhor dissemine ódio por aí.

Seja o Benedito de Meu Pedacinho de Chão, um Benedito colorido, sensível, com boas intenções. Não, meu caro, nada disso vai ferir sua masculinidade, nem vai fazer um dos seus dez netos ou quatro bisnetos um gay – mas saiba que algum deles talvez seja, ok? Só te peço que, se não for ajudar, Benedito, por favor, não nos atrapalhe.