Harvey WeinsteinFoto: Reprodução

Harvey Weinstein e a sujeira embaixo do tapete vermelho: uma discussão sobre assédio sexual

*texto escrito pelas maravilhosas meninas do Pop Don’t Preach a convite do blog

Dificilmente você, fã de cultura pop com acesso a internet, não leu ou ouviu alguma coisa sobre o caso Harvey Weinstein, que explodiu no começo deste mês. Resumindo: um produtor famosíssimo de Hollywood foi acusado de assédio e abuso por muitas (muitas mesmo) mulheres da indústria cinematrográfica norte-americana. Nós do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop, fomos convidadas pela equipe do Fica Quietinho (obrigada seus lindos <3 ) para falar um pouco sobre as discussões que esse caso trouxe à tona. Vamos lá!

Cultura do Estupro

A primeira coisa que queremos fazer é dar nome aos bois. O que aconteceu no caso Weinstein é uma das pontas da tão sedimentada Cultura do Estupro. Nunca ouviu falar sobre isso? Em exemplo ilustrado, é um poderosíssimo homem de 65 anos que coleciona mais de 30 anos de acusações de assédio e abuso de mulheres com a plena convicção que sairá impune.

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É uma série de noções, hábitos e normas sociais extremamente disseminados em diversos aspectos de nossas vidas, que reproduzimos consciente ou inconscientemente e que acabam naturalizando, relativizando e incentivando a violência sexual contra a mulher. Chamamos o estupro de um crime de gênero pois na grande maioria de seus casos está associado com a demonstração de poder de um homem sobre uma mulher. Sabemos que existem inúmeros casos de estupros contra meninos, especialmente abaixo de 13 anos, mas nosso foco aqui será o nosso lugar de fala: as mulheres. E assim, enquanto cultura, essa noção está espalhada por tudo que consumimos do pop: músicas, filmes, séries, peças de teatro, animes, quadrinhos etc. Nós, do Pop Don’t Preach, fizemos um episódio inteirinho do podcast sobre o assunto, clique aqui para ouvir.

A atriz Courtney Love – Foto: Reprodução

No caso Weinstein, o primeiro indício que reforça a questão cultural da coisa era o fato disso nunca ter sido um segredo velado em Hollywood. Em 2005, durante um tapete vermelho, perguntaram à Courtney Love se ela tinha algum conselho para jovens atrizes. A resposta foi: “Se Harvey Weinstein te convidar para uma festa privada no Four Seasons, não vá!”. Não vamos nem entrar na questão de como mulheres como Courtney são sempre desacreditadas, rotuladas de “drogada”, “louca” e etc. Love foi banida da Creative Artist Agency (CCA) por denunciar Weinstein, sob a justificativa de difamação infundada. Mas o ponto aqui é que (publicamente) desde 2005 já havia uma noção concreta da estratégia de abusos de Weinstein. Após os primeiros relatos de abuso de Harvey no começo de outubro deste ano, atrizes como Cara Delevigne e Léa Seydoux confirmaram que os abusos e assédios aconteciam sob pretexto de “uma reunião de negócios em uma suíte do Four Seasons”. Você pode achar estranho reunião de negócios em suítes de hoteis, mas na verdade, isso é bem comum na industria cinematográfica. Grande parte das entrevistas um-a-um que assistimos com os atores divulgando os filmes são feitas em quartos de hoteis, por exemplo.

A atriz Gwyneth Paltrow – Foto: Reprodução

Ao longo dos anos, o comportamento de Weinstein foi motivo de piada em séries (30 Rock), nas indicações ao Oscar (2013) e até uma constrangedora entrevista com Gwyneth Paltrow para David Letterman onde ela afirma que Harvey a coagiu. Estamos em 2017 e, aparentemente, a prática “teste-do-sofá” ainda prevalece na mente masculina, onde espera-se que mulheres ofereçam favores sexuais em troca de cargos e papeis em produções – só confirmando a tóxica dominancia masculina dentro dessa indústria. Transformar a cultura do estupro em piada, nesses casos, parecia um grito de socorro, a última alternativa de uma parcela do mercado que não seria ouvida de outra maneira.

#METOO

Sempre quando um caso desses vem à tona, além de lidar com o assédio e agressão, as mulheres tem que lidar com julgamento do público – que muitas vezes culpa a vítima com frases como “mas o que você estava fazendo conversando em uma sala sozinha com ele?” – e com a grande chance de impunidade que beneficia os homens, mesmo quando existem provas e mais provas. Donald Trump coleciona uma série de registros de abuso e violência sexual, segue presidente dos EUA. O caso Bill Cosby teve mais de 70 mulheres. Isso comprova a sistemática desse machismo enraizado em toda a nossa cultura mundial, não só nos Estados Unidos.

O comediante Bill Cosby – Foto: Reprodução

Atores como Ben Affleck e Russel Crowe foram acusados de encobertarem os abusos do famoso produtor. Ben Affleck, não vamos esquecer, assediou publicamente Hilarie Burton (de One Tree Hill) em uma gravação do antigo programa TRL, e é irmão de Casey Affleck – conhecido abusador de mulheres que, curiosamente, irá entregar o Oscar de Melhor Atriz em 2018. Matt Damon, amigo pessoal da familia Affleck, comentou: “antes de ser famoso já achava esse tipo de comportamento inaceitável. Agora como pai de quatro meninas, esse tipo de predatorismo sexual é o que me deixa acordado a noite. Esse é o maior medo para todos nós”. Bom saber que sua consciência moral depende de suas filhas, Damon, e não daquela noção louca de que mulheres também são seres humanos e nenhum abuso é justificado.

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Situações como a de Weinstein são tão comuns que deixamos passar totalmente batido ou simplesmente estamos tão imersos nessa cultura que sequer olhamos criticamente essas situações. Como esquecer dos casos do Dr. Luke, Johnny Depp, o brasileiro Biel e tantos outros que passaram despercebidos ou que as acusações foram rapidamente esquecidas?

Foto: Reprodução

A cantora Lady Gaga – Foto: Reprodução

Após as revelações em Hollywood, Alyssa Milano, Anna Paquin, Lady Gaga e outras famosas se juntaram à campanha online #MeToo, que pedia o compartilhamento da tag para qualquer mulher que tivesse sido vítima de um abuso sexual, com o intuito de dar dimensão ao enorme tamanho desse sério problema. Só no dia 16 de outubro, foram mais de 50 mil tweets com a tag, sem contar outras redes sociais. Alguns homens entraram na campanha também, contando histórias de abusadores que usufruiram de seus “poderes” para assediá-los sexualmente. No entanto, a campanha também atraiu críticas quando pareceu uma “coerção” à vítimas a contarem suas histórias – lembramos aqui que ninguém é obrigada a dividir algo tão sofrido e doloroso, ninguém pode confiscar sua carteirinha de feminista por isso!

O volume de narrativas semelhantes é assustador, mas o volume de mulheres que estão se sentindo empoderadas o suficiente para compartilhar essas histórias e denunciar agressores é nossa única esperança. Campanhas como #MeToo e a #MeuPrimeiroAssédio aqui no Brasil ajudam a entendermos a força que temos quando não ficamos caladas frente toda essa violência e, de alguma forma, ajuda a criar um ambiente em que mulheres se sintam à vontade para compartilhar tanto casos quanto maneiras de combater os abusos.

Aparentemente a carreira de Harvey Weistein está realmente encerrada e o caso foi o estopim para uma potencial mudança na organização de gênero de Hollywood. Se isso irá de fato transformar a indústria, infelizmente não sabemos com certeza, mas sabemos que já é um passo na direção certa.

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