FQ no Oscar 2014 | Trapaça merece todas as indicações, mas não todas as estatuetas

O Oscar 2014 está se aproximando e – assim como no Rock In Rio -, resolvemos fazer um especial bem maneiro sobre os candidatos à estatueta de Melhor Filme. De hoje até o dia 1º de março, véspera da cerimônia, vamos fazer uma série de postagens sobre os nove concorrentes à maior categoria da premiação americana.

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Desta vez também convidamos jornalistas, cineastas e blogueiros ligados à sétima arte para escrever suas percepções, ideias, críticas e – porque não? – divagações sobre os indicados. Hoje, a quarta postagem da série é Pedro Barrote*, do nosso parceiro Pizza de Ontem, que decidiu falar sobre Trapaça, que tem um elenco recheado de estrelas como Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Robert De Niro e a sempre maravilhosa Jennifer Lawrence:

Dinheiro. Poder. Reconhecimento. Todos temos algum desejo, mas até que ponto sua ambição te levaria? Trapaça, longa que concorre a dez estatuetas do Oscar, é movido apenas por este sentimento: a ganância. A vontade sem limites de atingir um objetivo está presente em todos os personagens, em todos os momentos. Mas foi a ambição do diretor David O. Russell (de O Lado Bom da Vida) de mais uma vez transformar uma história simples em algo extraordinário, que fez com uma chata narrativa de fatos reais pudesse se tonar uma divertida viagem ao lado obscuro da década de 1970: a máfia e a sujeira por trás da política.

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O longa acompanha o charmoso vigarista Irving Rosenfeld (Christian Bale), que com a ajuda de sua amante e sócia Sydney Prosser (Amy Adams) aplica pequenos golpes financeiros. O casal, porém, é pego no flagra pelo agente Richard DiMaso (Bradley Cooper), um mimado filhinho de mamãe que se considera um agente secreto capaz de livrar a humanidade da corrupção, e, para não irem parar atrás das grades, passam a ajudar a polícia a desmascarar grandes políticos e mafiosos. Os alvos principais são o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) e o mafioso Victor Tellegio (Robert De Niro), mas é a nada discreta mulher de Irving, a problemática e possessiva Rosalyn Rosenfeld (Jennifer Lawrence), a única capaz de atrapalhar os planos do marido.

O roteiro, baseado na história do golpista Melvin Weinberg, que na década de 1970 foi contratado pelo governo para criar uma farsa que ajudou a polícia a prender grandes mafiosos e políticos corruptos, já estava pronto desde 2010, escrito por Eric Warren Singer. Mas após algumas recusas, caiu nas mãos O. Russell, que concluiu ser necessário mais do que uma simples trama policial para fazer daquele enredo mediano um grande filme. O diretor alterou não só a cronologia dos fatos, como acrescentou ação e comédia e retirou de cena os personagens da vida real. Melvin Weinberg e companhia foram substituídos por caricaturas de si mesmos, com novos nomes, aparências e suas características psicológicas elevadas à máxima potência.

 

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A história batida ganhou novos ares. O. Russell construiu uma trama psicológica complexa por detrás dos fatos e o que vemos na tela é uma densa e conturbada teia de relações, na qual todos os personagens acabam por se enrolar. Tudo de forma ambígua, marcado por amor e falsidade. Não há mocinhos. Não há vilões. Todos têm seu lado humano, mas nenhum deles conhece os limites da ética para atingir seus objetivos, ainda que com boas intenções. O charme da narrativa fica por conta da licença poética com que o longa retrata os anos 70, o nítido exagero nos clichês da época, apresentando cenas tensas com um visual divertido, cheio de penteados exóticos e calças boca de sino.

A forma como David O. Russel conduz o enredo – além da própria temática – é uma clara homenagem ao estilo de Martin Scorsese e é aí que se encontra a principal barreira para o triunfo de Trapaça no Oscar. A “cópia” terá de competir com o original, que levou às telonas neste ano o divertido O Lobo de Wall Street. Mas ao contrário de Scorsese, que com toda a sua experiência nos faz delirar durante as mais de três horas de seu mais recente longa, O. Russell não consegue nos prender e o filme se torna cansativo e confuso a partir da metade.

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O elenco perfeitamente afiado – sobretudo Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams e Jennifer Lawrence – é, sem dúvidas, o que o longa tem de melhor. O. Russell parece ser um mestre em extrair o máximo de cada ator. Prova disso é que verá, pelo segundo ano consecutivo, quatro dos atores principais de um de seus longas indicados ao Oscar, feito que não ocorria desde 1981. A trilha sonora e o figurino divertido também não deixam a desejar e ajudam a ambientar a história e colaboram com o clima sempre no limite entre o suspense e a comédia.

Apesar de suas dez indicações, Trapaça dificilmente sairá como o grande premiado da noite. Além da dificuldade que o diretor terá em enfrentar Scorsese e Alfonso Cuarón com sua brilhante direção de Gravidade, os atores também terão problemas. Christian Bale terá dificuldades para ganhar a estatueta na disputa com Leonardo DiCaprio, Matthew McConaughey e o menos conhecido, mas não menos talentoso, Chiwetel Ejiofor. Já Amy Adams dificilmente tirará o prêmio de Cate Blanchett, na categoria de melhor atriz, em que a única surpresa poderá ser uma vitória de Sandra Bullock. Bradley Cooper terá de enfrentar o insuperável Jared Leto.

Portanto caberá provavelmente a Jennifer Lawrence salvar o elenco e receber a estatueta dourada, ainda que por falta de grande concorrência na categoria. Existem as chances de prêmios como melhor roteiro e melhor figurino, mas nada além disso. E não preciso nem dizer que o filme, apesar de agradável, passa longe de ser o melhor do ano – ainda que a academia por vezes nos reserve algumas reviravoltas surpreendentes.

Resumindo, Trapaça é um bom filme, excelente em tudo que se propõe: um bom figurino, boa direção, ótimas atuações, uma bela fotografia, um roteiro bem construído. Em nenhum dos casos, contudo, consegue superar seus adversários à maior premiação do cinema. Merece as indicações, mas não merece as estatuetas!

*Pedro Barrote é um historiador careta, criador do Pizza de Ontem, parceiro do FQ, apaixonado por filmes e livros e que sonha em ser o Dumbledore quando crescer