Boa Sorte; Deborah Secco; João Pedro Zappa

Com Deborah Secco, Boa Sorte conta uma sensacional história de amores e verdades

Boa Sorte; Deborah Secco; João Pedro Zappa

Nós demoramos a escrever sobre Boa Sorte, isso é um fato. Mas há uma explicação: tomei um comprimido de frontal com fanta, fiquei invisível e fui enxergar a vida de verdade por aí. Brincadeiras a parte, o filme com Deborah Secco e João Pedro Zappa, que estreia nacionalmente nesta quinta-feira, 20, não se resume a apenas uma história, a um único fio de meada e um único destaque de atuação. E é isso que faz da primeira obra da diretora Carolina Jabor algo sensacional.

Houve quem o comparasse ao longa A Culpa é das Estrelas, mas Boa Sorte é ainda mais intenso, mais complexo e mais simples ao mesmo tempo. Boa Sorte lida com a esquizofrenia, com a certeza da morte, uma paixão adolescente desenfreada e “perigosa” e com vários tipos de amor. É impossível não ser tocado por pelo menos uma dessas tramas entrelaçadas.

Boa Sorte; pôsterDeborah Secco, digo sem medo, faz seu melhor papel como atriz. A jovem e divertida Judite, viciada em drogas, soropositiva, orfã de mãe e criada por uma avó permissiva – que interna a neta numa clínica psiquiátrica, mas leva entorpecentes escondidos em potes de tinta para a jovem – é perfeita no todo e, principalmente, nos detalhes da evolução ao longo da história. Judite é apaixonante. Não apenas porque já se conformou com seu estado e com o que lhe espera o curto futuro, mas também porque arranca de João o que todo espectador também espera que desperte em si quando está apaixonado: verdades. O menino se entrega. “Me diz uma coisa que ninguém sabe sobre você”, pede a moça ao rapaz. “Às vezes eu fico invisível”, releva ele com sua fórmula bem simples: basta misturar frontal com fanta. “Mas às vezes dá errado”, confessa.

É esse ar de intimidade e de inocência que faz do amor dos dois e de Boa Sorte algo maravilhoso de se acompanhar. João não é louco, Judite muito menos. Ou são, mas se “curam” nesse amor. “Eu posso te amar”, diz ele. “Você quer me amar. … Tem vários tipos de amor. Qual você quer?”, devolve ela. E vai você aí me dizer se a vida não é exata e eternamente esse tipo de escolha?

Boa Sorte; Deborah Secco; João Pedro Zappa

Os diálogos infantis e filosóficos desse tipo já bastariam para que nos apaixonássemos. Mas Deborah e sua Judite resolveram ir além. Uma transformação de mais de 10 quilos na evolução da doença seria o suficiente, mas a atriz decidiu também dar a Judite boas olheiras, um ar de tristeza, resignação mas ainda com toques de humor tão reais que os espectadores acabam, junto com João, perdendo ali naquele leito de hospital alguém que também era de alguma maneira seu. É difícil não se apegar. Mais complicado ainda é não ouvir entre seus próprios pensamentos diante da tela, com o perdão dos termos, um “puta que pariu, não acredito que ela vai mesmo partir”.

João Pedro Zappa, justiça também seja feita, é um parceiro e tanto para Deborah nessa parada. O bate-bola entre os dois em cena, com todo o entrosamento e química evidente, mostra também o talento do ator. Um viva e muitas palmas também para Cássia Kis Magro e Fernanda Montenegro, que embora com participações pequenas na trama, esbanjam propriedade de atuação respectivamente com a avó Célia e a Dra. Lorena.